Considerações fenomenológicas sobre o amor e o ciúme em “A chave”, de Junichiro Tanizaki
DOI:
https://doi.org/10.37067/rpfc.v15i2.1261Palavras-chave:
Amor, Ciúme, Sexualidade, Corpo, FenomenologiaResumo
O romance “A chave”, do escritor japonês Junichiro Tanizaki, concede elementos que permitem uma instigante possibilidade de reflexão sobre a relação entre sexualidade e fenomenologia. Tanizaki conta a história de um casal em que marido e esposa escrevem separadamente seus respectivos diários, a princípio sem revelar o conteúdo ao parceiro, expressando nas páginas intensas confissões de caráter erótico. Entretanto, em determinado momento, ambos suspeitam que são lidos um pelo outro às escondidas. A partir de então, o leitor da obra não sabe se o que é relatado nos diários corresponde a verdades ou a experiências e sentimentos forjados, com o objetivo de que um parceiro intencionalmente confunda o outro. Assim, a narrativa revela uma dinâmica em que o encontro com o outro é substituído por jogos de manipulação e encenação. À luz do capítulo “O corpo como ser sexuado”, da “Fenomenologia da percepção” de Merleau-Ponty, é possível identificar, na trama, distorções da condição erótica. Para o filósofo, a sexualidade é um modo originário de presença no mundo, uma via de acesso ao outro enquanto sujeito. Em Tanizaki, entretanto, essa dimensão encontra-se corrompida: o olhar não é permeado pela reciprocidade, e o corpo do outro é reduzido a objeto fetichizado. Onde poderia haver cortejo, enquanto expressão corporal do amor, surgem o ciúme e a traição como artifícios para sustentar a excitação. Assim, “A chave” expõe experiências em que a sexualidade, em vez de linguagem de reciprocidade, converte-se em um campo de manipulações que negam a alteridade do outro.
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Referências
Becher, G. E., Bremberger, L. L. (2023). Transtornos da sexualidade humana. In: G. B. Castellana, F. Guimarães-Fernandes, E. W. Aratangy, & P. C. Sallet (Eds.), Psicopatologia clínica e entrevista psiquiátrica (1ª ed.). Santana de Parnaíba: Manole.
Becher, G. E. (2024). Notas sobre o amor vivido: Uma travessia fenomenológico-literária. Psicopatologia, Fenomenologia e Contemporaneidade, 13(2), 71-83.
Merleau-Ponty, M. (2018). Fenomenologia da percepção (5ª ed.). São Paulo: WMF Martins Fontes.
Tanizaki, J. (2000). A chave. São Paulo: Companhia das Letras.
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