O agora (in)suportável

reflexões fenomenológicas sobre urgência psicológica e a (necessária) superação da compreensão biomédica

Autores/as

  • Francisco Luan de Souza Carvalho Universidade de Fortaleza (UNIFOR)
  • Anne Camile Costa Pereira Universidade de Fortaleza UNIFOR
  • Lucas Guimarães Bloc Universidade de Fortaleza UNIFOR

DOI:

https://doi.org/10.37067/rpfc.v15i2.1264

Palabras clave:

Urgência Psicológica, Fenomenologia, Compreensão biomédica

Resumen

O presente artigo tem como objetivo discutir sobre o fenômeno da urgência psicológica em sua dimensão existencial, considerando-o não como mera condição clínica, mas como expressão encarnada e situada da experiência em crise. Parte-se da compreensão de que a urgência psicológica, tradicionalmente compreendida por modelos biomédicos como uma manifestação crítica de sofrimento psíquico que demanda intervenção imediata, é frequentemente reduzida a um conjunto de sintomas e protocolos, desconsiderando sua complexidade existencial. O método consiste em uma análise teórico-fenomenológica, baseada em autores como Merleau-Ponty, Tatossian e Fuchs, e outros autores contemporâneos, articulando conceitos como temporalidade vivida, corpo próprio, intersubjetividade e Lebenswelt (mundo da vida). O trabalho se estrutura em três eixos de discussão: (1) as condições de possibilidade da urgência psicológica, abordando-a como mudança momentânea no modo de viver e no habitar cotidiano; (2) o deslocamento da compreensão biomédica para uma leitura fenomenológica do fenômeno, distinguindo sintoma e fenômeno como categorias centrais na clínica; e (3) as implicações éticas e clínicas de uma escuta ampliada, que privilegie a presença e a co-responsividade no encontro terapêutico. Os resultados teóricos indicam que a urgência psicológica não se restringe a um evento patológico e sintomatológico, mas manifesta um estranhamento no modo de vivência subjetiva do tempo vivido, do corpo e da relação com o Outro, bem como do mundo compartilhado. Conclui-se que a clínica fenomenológica pode acolher essa mudança repentina, não como algo a ser contido, mas como abertura para o cuidado e para a reconstrução de sentido. A urgência psicológica, neste horizonte, pode ser compreendida como expressão da vulnerabilidade existencial e como oportunidade de reabertura ao mundo, exigindo uma ética da presença e da escuta.

Descargas

Los datos de descargas todavía no están disponibles.

Biografía del autor/a

Francisco Luan de Souza Carvalho, Universidade de Fortaleza (UNIFOR)

Mestre e Doutorando em Psicologia (UNIFOR/APHETO) - Bolsista FUNCAP.

Anne Camile Costa Pereira, Universidade de Fortaleza UNIFOR

Psicóloga e Mestranda em Psicologia (UNIFOR/APHETO).

Lucas Guimarães Bloc, Universidade de Fortaleza UNIFOR

Doutor em Psicopatologia na Université Paris Diderot - Paris VII; Professor do PPGP/UNIFOR - Coordenador do APHETO.

Citas

Barata, A. (2008). O outro e a relação: O contributo das fenomenologias da intersubjectividade. Revista Portuguesa de Filosofia, 64(2), 333–351.

Bloc, L., & Moreira, V. (2013). Sintoma e fenômeno na psicopatologia fenomenológica de Arthur Tatossian. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., 16(1), 28-41.

Bloc, L., Souza, C. & Moreira, V. (2016). Phenomenology of depression: Contributions of Minkowski, Binswanger and Tatossian. Estudos de Psicologia, 33(1), 107-116. doi: 10.1590/1982-027520160001000011

Carvalho, F. L. de S., Marques, D. L. L., & Bloc, L. G. (2025). The (in)definition of psychological urgency and its clinical developments: A scope review (2016–2025). Boletim de Conjuntura (BOCA), 24(70), 70–91. https://doi.org/10.5281/zenodo.17437927

Cerqueira, A. C. R. D., & Nardi, A. E. (2010). Experiência fora do corpo como um possível sintoma de transtorno de pânico. Brazilian Journal of Psychiatry, 32, 319-320.

Chamond, Jeanine. (2011). Fenomenologia e psicopatologia do espaço vivido segundo Ludwig Binswanger: uma introdução. Revista da Abordagem Gestáltica, 17(1), 3-7. Recuperado em 10 de outubro de 2025, de http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672011000100002&lng=pt&tlng=pt.

Costa, C. O. D., Branco, J. C., Vieira, I. S., Souza, L. D. D. M., & Silva, R. A. D. (2019). Prevalência de ansiedade e fatores associados em adultos. Jornal brasileiro de psiquiatria, 68(2), 92-100.

Cury, V. E. & Fedda, G. M. (2020). Narrando encontros que constroem vivências e tecem sentidos. In: Dutra, E. (2020). Sofrimento, Existência e Liberdade em tempos de crise. Editora IFEN.

Dutra, E. (2020). Sofrimento, Existência e Liberdade em tempos de crise. Editora IFEN.

Feijoo. A. M. L. C. & Lessa. M. B. M. F. (2019) O Gesto Fenomenológico: corpo, afeto e discurso na clínica. pp. 187-206. Ifen.

Feijoo. A. M. L. C. & Bloc, L. G. 2024. A escuta em psicologia nos diversos espaços: diálogos Inter e Transdisciplinares. Editora IFEN.

Feijoo. A. M. L. C. 2023. A escuta e a fala em Psicoterapia: uma proposta fenomenológico-existencial. Editora IFEN.

Fuchs, T. (2001). Melancholia as a desynchronization: Towards a psychopathology of interpersonal time. Psychopathology, 34(4), 179–186.

Fuchs, T. (2012b). The Feeling of Being Alive. Organic foundations of selfawareness. Em J. Fingerhut & S. Marienberg (Eds.). Feelings of Being Alive (pp. 149-165). Berlin/New York: De Gruyter.

Fuchs, T. (2018). Existential vulnerability: Toward a psychopathology of limit situations. In M. Aragüés Estragués & A. Giménez Amaya (Eds.), Patologías de la existencia: Enfoques filosófico-antropológicos (pp. 39–53). Prensas de la Universidad de Zaragoza.

Fuchs, T. (2020). The circularity of the embodied mind. Frontiers in Psychology, 11, 1707.

Gama, Jane Borralho, & Martins, Francisco. (2012). O discurso breve do paciente: compreender e interpretar segundo Weizsaecker. Revista da Abordagem Gestáltica, 18(1), 37-42. Recuperado em 09 de outubro de 2025, dehttp://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672012000100006&lng=pt&tlng=pt.

Goretti, S., Esposito, C. M., & Di Petta, G. (2023). Phenomenology of psychiatric emergencies. Frontiers in psychology, 14, 1212054.

Harper, Douglas. Online Etymology Dictionary. Disponível em: https://www.etymonline.com/. Acesso em: 17 nov. 2024.

Holanda, T. C. M. (2023). O plantão psicológico sob a óptica da Psicoterapia Breve-Focal. Editora Dialética.

Macedo, L. S. R. D., & Silveira, A. D. C. D. (2012). Self: um conceito em desenvolvimento. Paidéia (Ribeirão Preto), 22, 281-290.

Martins, F. (1989). Psicologia clínica e ética-Do objetivo deste trabalho: a íntima relação de fundação entre a psicologia clínica ea ética. Psicologia: ciência e profissão, 9(2), 12-15.

Melo. A. K. (2019). O cuidado em Saúde como Gesto sob o olhar da fenomenologia. In: Feijoo. A. M. L. C. & Lessa. M. B. M. F. (2019) O Gesto Fenomenológico: corpo, afeto e discurso na clínica. pp. 209-229. Ifen.

Merleau-Ponty, M. (2006). Fenomenologia da percepção. São Paulo, SP: Martins Fontes . (Trabalho original publicado em 1945)

Messas, G., Tamelini, M., & Mancini, M. (2018). New perspectives in phenomenological psychopathology: Its use in psychiatric treatment. Frontiers in Psychiatry. https://doi.org/10.3389/fpsyt.2018.00466

Moreira, V., & Bloc, L. (2012). Fenomenologia do tempo vivido no transtorno bipolar. Psicologia: Teoria e Pesquisa, 28, 443-450.

Moreira, V., & Bloc, L. (2021). Fenomenologia Clínica. Editora IFEN.

Moreira, V. Bloc, L. Vasconcelos, C. Aguiar, L. (2025). Reconhecimento e Sustentação como Método Clínico Humanista-Fenomenológico na Psicoterapia do (In)visível. In: Bloc, L. G. Souza, C. P. Araújo, J. L. (2025). Sofrimentos Contemporâneos (In)visíveis: a mundanidade na clínica. Editora IFEN.

O'Dwyer, G. (2010). A gestão da atenção às urgências e o protagonismo federal. Ciência & saúde coletiva, 15, 2395-2404.

Sen, C. (2020). The phenomenology of crises (Doctoral dissertation, Doctoral dissertation]. Chaminade University).

Silva, L. O. R., de Carvalho, A. R. R. F., de Carvalho, Â. S., & de Souza Carvalho, F. L. (2025). Plantão Psicológico como possibilidade de acolhimento à população LGBTQIA+:: perspectiva e intervenções de psicólogos plantonistas. AMAzônica, 18(2), 188-210.

Sorte, É. M. D. S. B., Silva, J. N. F. D., Santos, C. G. D., Pinho, P. D. C. D., Nascimento, J. E., & Reis, C. (2020). Análise da percepção de acadêmicos sobre o ensino de urgência e emergência em curso médico. Revista Brasileira de Educação Médica, 44(03), e075.

Stanghellini, G. (2018). Phenomenological psychopathology and care: From person-centered dialectical psychopathology to the PHD method for psychotherapy. Frontiers in Psychiatry.

Souza, C. P.; Bloc, L. G.; Moreira, V. Corpo, Tempo, Espaço e Outro como Condições de Possibilidade do Vivido (Psico)patológico. Estudos e Pesquisas em Psicologia, v. 20, n. spe, p. 1253-1272, 2020. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812020120000014&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 16 fev. 2025. https://doi.org/10.12957/epp.2020.56660.

Souza. C. P. & Moreira, V. (2019). Intersubjetividade do gesto como expressão da corporeidade na psicoterapia. In: Feijoo. A. M. L. C. & Lessa. M. B. M. F. (2019) O Gesto Fenomenológico: corpo, afeto e discurso na clínica. pp. 187-206. Ifen.

Souza, C. P. D., & Moreira, V. (2020). O Tempo vivido em Mrs. Dalloway à Luz da Fenomenologia de Merleau-Ponty. Psicologia: Ciência e Profissão, 40, e189510.

Tatossian, A. (2006). A fenomenologia das psicoses. São Paulo: Escuta. (Trabalho original publicado em 1979).

Tatossian, Arthur. Moreira, Virgínia. (2012). Clínica do Lebenswelt: psicoterapia e psicopatologia fenomenológica. Editora: Escuta.

Publicado

2026-08-08

Número

Sección

Artículo original