Viver é escrever o poema que somos

Ficções literárias, sentido e identidade

Autores

  • Martin Buceta Universidade Católica Argentina / CONICET

DOI:

https://doi.org/10.37067/rpfc.v15i2.1325

Palavras-chave:

Ficção, Sentido, Identidade, Poiesis, Literatura

Resumo

Este artigo examina o papel da ficção literária na constituição do sentido e da identidade pessoal. Partindo de uma pergunta central na tradição filosófica e literária: Por que nós, seres humanos, lemos e produzimos ficções persistentemente? Se bem as neurociências da narrativa já destacaram suas funções adaptativas – facilitar a cognição social, promover a coesão comunitária, possibilitar a internalização de normas morais e oferecer um marco para antecipar situações da vida real –, aqui se sustenta que seu aporte mais decisivo reside na configuração da subjetividade e na construção do sentido. Na primeira seção, é abordada a problemática da “morte de Deus” em Nietzsche, e suas consequências culturais: a perda de fundamentos transcendentes, a dissolução dos marcos morais e a experiência de um mundo sem orientação. Ainda que as respostas contemporâneas se dividam entre a radicalização de propostas tradicionais e o sincretismo, a persistência do problema demanda alternativas conceituais. A segunda seção explora uma dessas alternativas a partir da ficção literária, e em particular do romance, concebido como dispositivo que possibilita a elaboração de uma identidade narrativa. Em diálogo com a hermenêutica de Paul Ricoeur, se argumenta que a ficção cumpre uma tripla mediação: referencialidade (entre ser humano e mundo), comunicabilidade (entre sujeito e os outros) e compreensão de si (entre o sujeito e si mesmo). A partir dessa perspectiva, a ficção não constitui uma evasão ou mero entretenimento, mas uma forma de poiesis capaz de conferir unidade ao disperso e configurar tramas de sentido. A tese central pode se resumir à fórmula: viver é escrever o poema que somos.

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Publicado

2026-08-08 — Atualizado em 2026-08-26

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